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DOCA DOS LIVROS

Doca dos Livros, pretende ser um espaço de divulgação de títulos inéditos, bem como pequenas crónicas de carácter generalista com o único intuito de divulgar autores anónimos que de alguma forma aqui se revejam.

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27
Nov13

O MISTÉRIO DA CASA DE SANTAS - Parte IV

M. Leal

 

 

Havia inevitavelmente entre os servos de Mustapha Ahmed quem não visse com bons olhos o seu bom relacionamento com os cristãos e esse alguém fez saber a Muhamad Al Fange das periódicas e nada aguerridas visitas do jovem cavaleiro à casa de El Mallah e Al Fange não deixou de modo algum cair saco roto tão preciosa informação. Um dia, número grupo de guerreiros mouros esperou, nas cercanias da casa de El Mallah, a reduzida patrulha comandada pelo jovem D. Pelro e chacinou-a, deixando espetadas nas lançasfin­cadas no chão, as cabeças dos cristãos.

Quando soube disso, D Alonso de Ansião acorreu à casa do velho e pacífi­co Mustapha que de joelhos no chão e em lágrimas lhe garantiu que não tinha nada a ver com o acontecimento. Jurou-o porém por Alah e juramento por Alah, para os cavaleiros cristãos, era menos do que nada. Por ordem de D. Pero de Portel, uma mesnada do castelo desceu até Al Jeruis e passou a fio e espa­da tudo quanto era mouro por ali. Foi morto e esquartejado o velho Mustapha, chacinados todos os seus servos e degoladas as suas mulheres, Fatma e as suas irmãs. A casa onde Mustapha se sentira, em tempos, tão favorecido por Alah, foi simplesmente incendiada e depois arrasada. Dela hoje nada resta se­não um morro em forma de seio de mulher, construído pelas areias que os sécu1os amontoaram sobre as ruínas, e os renques de pinheiros que a delimitavam. Foi uma pena! Dali sairia, certamente, uma bela comunidade mozárabe.

Cerca de setecentos e sessenta anos depois, eu tive ocasião de ver, talvez pela última vez, a família de Mustapha Ahmed El Mahllad. Não posso garantir que ele estivesse presente no grupo, mas estava, isso certamente, Fatma e as suas quatro irmãs Chahida, Habija, Malika e Latifa! Eu conto.

Meu pai era, por volta de mil novecentos e trinta e oito, o arrendatário da casa das Curvas. Essa casa ainda hoje lá existe onde a estrada que a ser­ve deixa de ser a estrada de Santas para ser a estrada das Curvas. Naquela época, todos os terrenos que de Setúbal saíam da Mulher que Fuma, passavam pelo sítio das Manteigadas e seguiam até às Curvas, eram ocupados por espar­sas quintas e servidos pela estrada de Santas, uma estrada no tempo muito mal-afamada. Não porque alguma vez houvesse memória de que por ali tivessem havido assaltos ou crimes de morte, mas pela fantástica razão de que, na estrada de Santas, haviam aparições de fantasmas. Daí que, de noite, poucos fossem os que a ela se metessem. Mas, além do meu pai que era como já disse locatário da Casa das Curvas, eu tinha também, entre outros, um tio materno chamado Leopoldino que era sócio do me pai. Era por ocasião da feira de Santiago e eu estava em Setúbal, em casa desse meu tio, para poder, com os meus primos, visitar a feira.

O meu tio era, como já disse, como o meu pai,, merceeiro. Só que, ao invés do meu pai, era rico e como homem rico, tinha uma charrete puxada por um cavalo, gordo e castanho, comprado num dos leilões de gado da Guarda Nacional Republicana, e que se chamava Malato. Não me perguntem porquê, porque todos sabem ser insondáveis os desígnios de um guarda-republicano quando batiza a montada. Fosse como fosse, o cavalo Malato era dócil como um cordeiro, possante como qualquer bom cavalo, e habituado a trovoadas, tiros e multidões ou não fosse ele montada de guarda mantenedor da ordem pública.

Bem, se o cavalo que puxava a charrete do meu tio não era bicho de en­trar em crises nervosas, o meu tio, como bom merceeiro de gema, não era propenso a especulações filosóficas e muito menos a visões místicas. E porque nem o meu tio era homem de medos irracionais, nem o Malato era cavalo de sustos fáceis e a Feira de Santiago já tinha acabado, resolveu o meu tio Leopoldino devolver-me à procedência. Para não prejudicar o negóciofê-lo depois da porta fechada, o que, naqueles tempos de flexibilização de leis laborais, como agora se diz, se fazia depois do pôr-do-sol. Assim, jantou o meu tio, atrelou o Malato à charrete, pôs-me sobre o banco, ao lado dele e arrancou para as Cur­vas seguindo a estrada de Santas.

Seguia o Malato em ousado passo que o tempo de correrias acabara já, quando fora aposentado pela GNR e vendido para tiro ao meu tio Leopoldino, tínhamos passado há muito a Mulher Fuma, acabáramos de passar o sítio das Manteigadas e estávamos a descer o pequeno declive que leva à curva em cotovelo que flete para a direita, a caminho das Curvas, quando o Malato es­tacou subitamente. O animal tremia visivelmente, as orelhas esticadas para trás, coladas à crina do pescoço e relinchava, um relincho percetivelmente de terror. Meu tio e eu seguíamos um tanto adormecidos ao balanço caden­ciado da charrete, deixando que o cavalo fizesse sozinho o seu trabalho. Ao estacar brusco da charrete e dada a conduta perfeitamente insólita do Malato ficámos despertos completamente e prestámos atenção ao que à nossa frente se passava. E o que se passava não tinha nada de aterrador. Era única e simplesmente um grupo de pessoas, entre as quais alguns vultos estavam imprecisos, mas do qual se destacava nitidamente uma jovem, sentada debaixo dos pinheiros, to­cando o que nos pareceu uma guitarra e mais três outras, duas delas crianças estavam sentadas no chão ouvindo-a embevecidas. Estavam todas vestidas de branco e só se lhes viam perfeitamente, os olhos e parte do rosto.

Pareciam pessoas que se recreavam no jardim duma casa inexistente e não tinham nada de extraordinário, senão o estarem ali, exatamente por volta da meia-noite, num local onde não era de esperar que alguém estivesse àquela ho­ra. Eu sentia-me perfeitamente tranquilo a observar o grupo. Aliás eu…tinha apenas oito anos. O meu tio Leopoldino que tinha mais de quarenta, é que as­sim se não sentia. Todos os cabelos do corpo se lhe tinham posto de pé como cerdas de um javali e a transpiração caía-lhe em bagadas. Sentia-se gelado e tremia, como o Malato, como varas verdes. Foi aí que o cavalo desembestou a caminho da Casa das Curvas passando pelo grupo numa velocidade incrível, o que fez as pessoas que o compunham acompanhar-nos com o olhar sorridente, como se estivessem a fazer troça do cagaço que metiam. A verdade é que o Malato percorreu o espaço que faltava até chegar à Casa das Curvas num tempo que hoje seria considerado recorde mundial para cavalos atrelados. Meu tio aflito com as rédeas não voltou a cabeça. Mas eu fi-lo, a tempo de ver aque­las pessoas a esvaírem-se lentamente no nada até que nada ficou, só escuridão.

Quando chegámos à Casa das Curvas meu tio Leopoldino estava branco como se estivesse pintado de alvaiade e só depois de ter bebido um bom cálice de aguardente adregou maneira de se exprimir, sem ser por meio de sons rouquejados e sem sentido. O cavalo Malato todo ele era espuma e levou alguns minutos tremendo incontrolavelmente. Só depois de bem esfregado, e servido de umas boas sopas de vinho, se acalmou.

Um antigo freguês do estabelecimento que por acaso por ali se demorara, assistira à chegada e ouvira a gaguejada descrição do meu tio Leopoldino, encerrou a questão opinando que tínhamos acabado de ver a celebrada apari­ção da estrada de Santas. Tantos anos volvidos, nunca mais ouvi notícia de que a aparição se repetisse. Tenho para mim que a estrada de Santas é corrupte­la da crisma original que deverá ter sido estrada “das Santas”. Porque santas devem ter sido aquelas pobres meninas assassinadas por via de uma vingança estúpida de D. Pero de Portel.

Agora ando realmente cheio de curiosidade. Consta que a cidade vai de­senvolver para aqueles lados a expansão habitacional, estou à espera que um qualquer buldózer, ao desfazer aquele morro que fica mesmo na curva em cotovelo, ponha a descoberto algumas ruínas árabes. Certamente, os restos da casa onde, no ano de mil cento e setenta e seis, depois das orações da tarde, o gordo e pacífico Mustapha Ahmed El Mallah, comendo o seu cacho de uvas, se sentia tão agradecido a Alah.

 

Orlando Leal, in "REAL, FANTÁSTICO E A MORTE"

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